Depoimentos

{magictabs}Depoimento 01::"Meu uso de drogas começou aos 13 anos de idade. Por curiosidade, experimentei maconha, que além de aceita pelo meu organismo, gostei do efeito. Deixava-me desinibido e comunicativo. Após um ano de uso, comecei a usar cocaína, pois meu organismo estava mais tolerante e a maconha passou a não ter o mesmo efeito. Comecei a trabalhar e meu salário era só para o uso de drogas. Não dormia direito e nem me alimentava. Só me drogava. Com 5 anos de uso já estava mais que claro para todos na empresa que havia algum problema comigo, notaram um desinteresse e a minha fisionomia transparecia algo de errado, eu abri o jogo e falei que estava precisando de ajuda, então me internaram em uma comunidade. Depois de 3 meses saí,mas não admitia que não poderia mais ficar louco pelo resto da vida. Então pensei em só beber, mas uma semana depois de ter bebido eu usei maconha e cocaína. E assim foi por quatro meses. Quando cheguei perto da loucura, vendo bichos e pessoas correndo atrás de mim, decidi pedir ajuda novamente. Estava com muito medo de morrer. Novamente fui internado e saí depois de 100 dias, mais consciente sobre a doença, consegui ficar 4 anos sem usar nem beber, mas continuava a freqüentar os mesmos lugares e a sair com as as mesmas pessoas. Resultado: voltei a usar. Daí em diante o mundo acabou, voltei a usar o dobro e conheci o crack. Perdi tudo o que consegui no período de abstinência em poucos meses. Perdi o emprego e roubei para conseguir drogas. Meu pai abriu uma conta conjunta comigo, pois estava doente e não podia se locomover. Quando ele morreu, não tinha dinheiro nem para enterrá-lo, uma poupança de 33 anos de trabalho estava nas mãos de traficante. Me culpei muito por isso e me afundei mais ainda nas drogas. Destruído física e moralmente, não conseguia pedir ajuda, mas graças a Deus, um amigo que teve o mesmo problema e estava em recuperação,conseguiu uma clínica onde fiquei um ano e três meses. Hoje, estou trabalhando, tenho novos amigos e não freqüento lugares que freqüentava antes. Estou sempre participando de grupos de auto-ajuda que são pessoas que tiveram problemas com drogas e se reúnem para partilhar suas dificuldades e assim se ajudarem, mostrando pra si que é possível viver sem drogas, que temos capacidade de enfrentar as dificuldades sem ter que fugir para um mundo de ilusões (drogas). A minha esperança é poder transmitir à outras pessoas que é possível ser feliz sem as drogas através de minha condição. Hoje, uma melhor qualidade de vida é minha luta, com fé em Deus conseguirei ser livre. Só por hoje para sempre. M.A.S.,27anos||||Dep. 02::

"No mês de agosto de 2000 vai fazer um ano que parei de fumar cigarro- uma droga socialmente aceita, assim como a bebida. Fumei por cerca de 20 anos, sendo que nos últimos cinco anos já estava pretendendo parar e tinha diminuído bastante o uso de cigarro.
Na minha família ninguém fuma. Cheguei a usar aqueles adesivos, mas não deu certo, pois o produto me causou mau estar. Um dos fatores que me levou a diminuir o cigarro foi o fato de não poder fumar na sala de trabalho, na época no Prédio Central.
Mas, esse vício é realmente difícil de largar. Somente no ano passado, com muita firmeza e oração a Deus e Jesus Cristo eu consegui me libertar deste vício. Hoje eu percebo como o cheiro e o gosto do cigarro são ruins. Já não posso ficar perto de fumantes, incomoda."

M. W.|||| Dep. 03::

"Tenho quarenta nove anos e estou casada a vinte e dois. Menu relacionamento com meu marido é muito bom, baseado no respeito mútuo e no amor que sentimos um pelo outro. Juntos constituímos uma família com base sólida, dentro dos princípios cristãos. Embora vivendo nesta harmonia, há mais ou menos cinco anos, nos deparamos com a droga fazendo um estrago violento na nossa vida. Meu filho, até então atuante na comunidade, brilhante em toda sua trajetória,terminando o segundo grau, passou a agir de forma não condizente ao que estávamos acostumados. Seus "amigos" que freqüentavam nossa casa não eram mais os mesmos, o diálogo dentro de casa, enfim...nossa vida estava se transformando completamente; a droga já havia tomado conta dela; a cada dia ele se afundava mais no emaranhado que havia escolhido. Sofreu dois atentados, dos quais ainda guarda uma bala como lembrança. Passamos a viver manipulados por esse filho, quase sem vida própria, não podíamos dormir, sobressaltados a cada toque do telefone, a cada sirene de resgate ou polícia que passasse.
Através de uma conhecida, que tempos atrás viveu pessoalmente os horrores da droga e hoje em recuperação há mais de dez anos, viemos a saber da existência do grupo Amor Exigente, que passamos a freqüentar.
Nas primeiras reuniões, a sensação de estarmos nos expondo a pessoas até então desconhecidas nos incomodava, mas com o passar do tempo percebemos a importância de estarmos ali, partilhando dos mesmos problemas e buscando soluções para eles.
Seguindo todas as orientações que aprendíamos no grupo, fomos aos poucos obtendo resultados satisfatórios com nosso filho, que passou a se comportar de modo diferente, voltando a nos respeitar e a se valorizar, até que conseguiu abandonar as drogas e nos dar alegrias que considerávamos perdidas.
Trabalhamos com a possibilidade de uma recaída a qualquer momento, mas como Deus nos deu forças para suportar o pior, tenho certeza que mesmo que isso venha a ocorrer será mais fácil para nós e para ele, uma vez que sairemos dela mais fortalecidos, porque fé e perseverança não nos falta.

A. A. S. D.|||| Dep. 04::

"A maioria dos jovens tem grande curiosidade por experimentar e vivenciar coisas novas e emocionantes. Nós queremos novas sensações, aventura, prazer, mas acima disso, queremos ser aceitos. Muitos de nós não nos sentimos aceitos sendo nós mesmos. Então a única solução parece ser mudar, se transformar em alguém que pareça ser legal, na tentativa de fazer com que os outros gostem mais da gente. Esta transformação pode variar desde um corte de cabelo diferente, até uma mudança de hábitos da pessoa.
Falando de mim, sempre detestei a sigla CDF; tinha medo de parecer um; então fazia coisas pra mostrar aos outros que eu não era. Muitas vezes isto incluía discutir ou brigar com algum amigo, e até mesmo o uso de drogas como o cigarro e a bebida. Analisando com calma é fácil identificar essa necessidade de uma auto-imagem diferente na época em que comecei a fumar.
Aos 11 anos, eu roubava alguns "Marlboros" da empregada que trabalhava em casa, e me sentia muito bem em fumá-los em festinhas de meus colegas. Eu fumava aqueles cigarros e me sentia especial, como se em um instante eu deixasse de me sentir inferior, e começasse a me achar melhor que os outros, ou pelo menos igual àqueles caras dos quais eu tinha inveja. Haviam vários caras que faziam com que eu me sentisse inferior, pois eles tinham a atenção das garotas, eram populares, etc. Quando eu fumava um cigarro parecia que essa sensação ia embora.
Esta, com certeza era a pior coisa que eu poderia fazer na tentativa de resolver meu problema, pois além de não resolvê-lo, eu, sem saber, estava criando um problema bem maior: a dependência. No começo eram um ou dois cigarros em festas, esporadicamente, mas eu fui me acostumando com a sensação de prazer que o cigarro me dava e, quando percebi, já estava fumando todos os dias. O alcool veio praticamente na mesma época, mas com uma diferença: ele realmente parecia resolver em definitivo meus problemas. Por exemplo, quando eu estava preocupado com algo errado que tinha feito eu bebia, e em poucos instantes já estava mais alegre me sentia bem, sem nem pensar nos meus problemas.
Agora estava concluída a primeira fase, onde meus vícios estavam começando a nascer. Daí por diante a coisa começou a acontecer cada vez mais rápido. Em uma viagem para Porto Seguro- BA, eu experimentei pela primeira vez maconha. E gostei do que eu senti, pois além do barato que dava, eu arrumei "amigos" ainda mais "legais";finalmente eu estava me sentindo um cara legal. Parecia mágica! Quando voltei pra São Paulo logo percebi que algumas pessoas fumavam a erva. Isto foi motivo pra que eu entrasse na turma.
O tempo foi passando e eu fui fazendo mais "amigos" desse tipo. Perto de casa morava um cara que era mais velho, e me parecia "legal". Numa noite eu fui até a pracinha pedir pra dar uns dois, e ele prontamente me passou o banza. O fato de eu fumar, além de "me deixar nas nuvens", ainda me trazia novos "amigos". Parecia que eu realmente havia encontrado a solução.
O outro lado da coisa já estava incomodando meus pais; por exemplo, o fato de eu repetir pela primeira vez. É, eu fui reprovado ao cursar o primeiro colegial, mas isso não me preocupava, pois estava muito ocupado com meus "amigos" e com as correrias que eu fazia para conseguir mais bagulho. Eu já estava viciado, mas não sabia. Nesta época eu já estava cheirando bensina, com aquele meu ''amigo''da pracinha. Uma vez eu fui na casa dele, pois ele disse que ia por um "baseado" pra gente fumar. Mas quando cheguei lá, ele me disse que estava sem. De repente chegaram uns outros caras, e todo mundo subiu para o quarto; e começaram a preparar algo. Eles estavam fumando crack! Fiquei muito curioso e com vontade de experimentar. Foi o que fiz. Na época eu tinha dezessete anos, e nunca havia usado cocaína. Eu gostei tanto do efeito do crack que tive medo de me viciar, então eu resolvi nunca mais fumá-lo.
Depois disso eu experimentei cocaína, e me tornei com o tempo, um usuário de coca. Daí em diante eu comecei a conhecer todos os tipos de drogas; e eu realmente gostava daquela vida; o pior é que eu não enxergava que eu estava em um caminho sem futuro. Os problemas aconteciam, mas eram toleráveis, como repetir de ano, passar a noite fora de casa, etc.
Só me dei conta do meu problema quando eu fiquei um mês sozinho e com dinheiro no bolso. Eu tinha alguns colegas que passavam bagulho e comecei a andar com eles, me afundei na "pedra", e meu estado ficou crítico. Só quando minha mãe voltou da viagem é que a coisa apareceu. Meus pais me internaram a força em uma psiquiatria, e daí então eu percebi que havia algo de errado comigo. Depois de passar dez dias internado, resolvi fazer uma outra internação; só que esta não incluía medicamentos psicotrópicos. Nesta outra clínica eu conheci os doze passos. Percebi que o que eu tinha não era nem falta de vergonha e menos ainda uma índole ruim. Eu descobri que era, e sou portador de uma doença chamada adicção. "Esta é uma doença que não tem cura, mas que pode ser detida em algum ponto e a recuperação então é possível" (Livro Azul de Narcóticos Anônimos). Hoje, depois de algumas recaídas, me encontro em recuperação novamente; e desta vez estou a mais de um ano sem beber ou usar outras drogas, pois sei que para mim ''uma é demais e mil não bastam". É isso aí, sou totalmente alérgico à qualquer tipo de droga.
Por outro lado minha vida nunca esteve tão boa e eu nunca me senti tão feliz. Sou capaz de fazer muitas coisas boas, ajudando a mim e aos outros.Essa vida, que eu conquistei, eu desejo a todas as pessoas que tem problemas com drogas. As drogas não são um caminho sem volta, mas ''a adicção é uma doença progressiva, incurável e fatal". Não se iluda: o verdadeiro prazer da vida não está nem em um cigarro nem em uma garrafa. O verdadeiro prazer está disponível pra todos nós, todos os dias. Basta que nos esforcemos em fazer coisas boas e produtivas, pra nós e pros outros.
Dedico este depoimento a todos os portadores da adicção, que sabem e que não sabem da sua doença; que nenhum adicto precise morrer usando sem conhecer a beleza de viver limpo.

Anônimo||||Dep. 05::

"Eu vou confessar... o que me fez largar as drogas... Desde criança eu visitava a biblioteca da minha cidade, no interior de São Paulo. Minha família não tinha muito dinheiro para comprar livros e materiais de papelaria, que era uma coisa que eu adorava! Quando entrei na escola, eu achava tão pouco estimulante aquela "cartilha"(onde aprendíamos o bê a bá); não era muito colorida, não tinha muita gravura... A escola era meu mundinho! Os professores tinham acesso aos livros, que a minha família não podia comprar e não se interessavam em comprar! E assim foi... nunca repeti de ano! Embora não fosse "aquela" aluna CDF! Eu gostava mais da escola em geral, das relações, das conversas, das brincadeiras,das viagens, do que das aulas: da conta de matemática, dos puxões de orelha, da falta de respeito dos professores com os alunos.
O tempo foi passando... fiz segundo grau, uma tatuagem e a faculdade. A idéia sempre foi a mesma, o universo acadêmico me fascinava! Só que nisso eu conheci as drogas... Uma festa aqui! Uma cerveja ali! Um baseado aqui! Um uísque ali! Um baseado aqui! Uma festa ali! Um LSD aqui! Uma viagem ali! Um vinho aqui! Um lança perfume ali! Uma viagem aqui! Uma vodka ali! Uma festa aqui! Um cigarro aqui! Uma pinga ali! Um cigarro aqui! Um churrasco ali! Um baseado aqui! Uma viagem ali! Uma festa aqui! O tempo foi passando... acabei a faculdade, arrumei um trabalho voluntário no lugar que sonhei desde criança! Só que nisso eu continuei com as drogas... Um baseado aqui! Um baseado ali! Um cigarro ali! Um baseado aqui! Uma tatuagem aqui! Uma vodka ali!Um baseado ali! Uma vodka aqui! Um baseado ali! Um tiro de cocaína aqui! Uma pinga ali! O tempo foi passando... passaram 10 anos!!!
Chegou um dia, eu vim fazer pós graduação na ESALQ-USP,o universo acadêmico ainda me fascinava! Eu já estava com 27 anos... tendo vivido muitas experiências, viajado muito e conhecido muitas pessoas! E as drogas continuavam... Foi quando eu comecei a resgatar meu sonho de criança! Fui descobrindo aos poucos que a motivação da minha vida, apesar do uso da droga, era o desejo de conhecer... Que esse desejo era a razão da minha luta, do meu esforço, da minha busca cotidiana! Esse despertar refere-se a um longo processo, não foi do dia para a noite! Várias pessoas participaram dessa conscientização que é lenta e dolorida!
Como afirmou Paulo Freire (1989) "a história é feita pornôs e nos faz. Ela não é um poder que faz a si mesma e a nós, ela é feita por nós. O poder dela está em que, sendo feita por nós, nos faz e nos refaz". Fui aos poucos, assumindo o fato de que eu estava fazendo pós graduação, que eu já conhecia os caminhos que levavam até o conhecimento! Fui descobrindo que apesar das minhas fraquezas, eu havia me transformado naquilo que na infância parecia ser apenas um desejo!
Que eu havia me transformado em uma intelectual (que estuda e que cria métodos para tirar os humanos da escuridão da ignorância, da sombra que os aprisiona na caverna, segundo Platão). Já não era mais o momento de só receber dádivas de Deus, mas chegava o momento de devolver à sociedade o que eu tinha demais precioso: os caminhos que levam ao conhecimento! Assim eu dei, como apoio de muitas pessoas "o cheque mate" nas drogas e hoje estou procurando assumir a postura de uma guerreira sem máscaras e sem ilusão! A partir dessa decisão, tudo teve que mudar... os hábitos alimentares, o apoio de exercício físico, de meditação, de jejum, de assuntos sadios e principalmente a mudança no círculo de amizades!
Estar aqui relatando esse processo, é como reaprender a vida! Apesar dos 10 anos usando drogas, não abandonei o lugar do meu sonho. E ao voltar para si mesma, antes de falar entendo que eu devo viver, para depois falar! Nesses 10 anos estive fazendo história, conhecendo coisas, reconhecendo o que já conhecia. Mas hoje sinto que estou como afirmou Mao Tsé Tung: "ultrapassando esse conhecimento que se fixa ao nível da sensibilidade dos fatos conhecidos, para alcançar a razão dos fatos". Hoje eu me sinto feliz, como se eu tivesse nascido de novo, com as ferramentas e experiências que adquiri ao longo da minha trajetória, porém com a lucidez que me foi concedida desde o ventre de minha mãe!
As pessoas que hoje pretendo pedir perdão e ao mesmo tempo agradecer, são completamente diferentes umas das outras: não fizeram a mesma faculdade, não moram na mesma cidade, não professam a mesma fé e não tem a mesma idade! No entanto, de alguma maneira todas elas tocaram o meu coração... e contribuíram com esse processo de reaprender a vida! "Pois todos os que fazem o mal odeiam a luz e fogem dela, para que ninguém veja as coisas más que fazem. Mas os que vivem de acordo com a verdade procuram a luz a fim de que a luz mostre que obedecem a Deus naquilo que fazem" (João3, 20-21).

Anônimo

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