60 Anos de Fundação da A.R.L.S. Scripta et Veritas

O Eminente Irmão André Luís Rosa dos Santos, Grão-Mestre do GOB-RJ, compareceu na última sexta-feira, 03 de outubro, à Sessão Magna Comemorativa Alusiva aos 60° Aniversário da Loja Scripta Et Veritas n° 1641, Grande Benfeitora da Ordem. Abaixo, as palavras do Amado Irmão Thiago de Assis, Venerável Mestre da A.R.L.S. Scripta et Veritas. O motivo que nos traz aqui nesta noite nos transborda de júbilo. Este ano essa Loja completa 60 anos de trabalhos ininterruptos dedicados à nossa sublime Ordem. Desde os primórdios da civilização, o homem adotou a prática de reunir-se ao redor das fogueiras em suas tribos e clãs, para comemorar a passagem dos ciclos da Natureza. Este rito de passagem foi acompanhado pelos patriarcas bíblicos, que uniram a esta prática a transmissão de conhecimentos e da tradição do povo hebreu. Isso mantinha unidos seus entes queridos e mais próximos, as tribos, os clãs, e atualmente provoca o mesmo efeito em nossas famílias e Pátria. Nós, da Augusta e Respeitável Loja Simbólica Scripta et Veritas, n° 1.641, Grande Benfeitora da Ordem, além do orgulho de comemorar essas efemérides, temos a honra e a grata satisfação de compartilhar nosso sentimento com Amados Irmãos membros de outras Lojas, e de nossos familiares e entes queridos, pois sem seu apoio, e a compreensão de que nossas ausências quinzenais têm o objetivo de nos tornar melhores maridos, pais, filhos e cidadãos, não estaríamos aqui presentes, e sequer esta Oficina teria o que comemorar. Vocês formam a imensa e fraterna Família Maçônica.

Loading

Apolônio de Tiana e os Milagres

Há figuras na história da humanidade que transcendem o tempo, o dogma, a religião — figuras que, como meteoros, cruzam o céu da consciência coletiva deixando um rastro de luz e mistério tão intenso que, mesmo dois mil anos depois, ainda nos fazem perguntar: “Quem foi, realmente, esse homem?”. Entre essas figuras, poucas são tão enigmáticas, tão poderosas, tão cercadas de milagres e controvérsias quanto Apolônio de Tiana — o filósofo neopitagórico que nasceu na Capadócia, no coração da Anatólia, por volta do ano 3 ou 4 d.C., e que, ao longo de sua vida, realizou feitos que desafiavam as leis da natureza, curou os enfermos com uma palavra, previu catástrofes com décadas de antecedência, ressuscitou os mortos diante de multidões atônitas, expulsou demônios sem invocar deuses, viajou por reinos distantes sem jamais tocar em ouro ou prata, e, no auge de sua fama, foi levado perante o imperador Domiciano em Roma, acusado de magia, sedição e blasfêmia — e, diante dos olhos de todos, desapareceu da sala do tribunal em plena luz do dia, deixando apenas seu manto dobrado sobre o banco dos réus. Apolônio de Tiana não foi apenas um homem — foi um arquétipo, um iniciado supremo, um avatar da sabedoria helenística, um ser que encarnou no mundo material com o propósito de demonstrar que os milagres não são privilégio de deuses ou santos, mas potencial latente em todo aquele que desperta a divindade interior. E é exatamente isso que vamos explorar neste artigo — não como um relato histórico frio, nem como uma apologia religiosa, mas como uma verdadeira iniciação, uma descida aos subterrâneos do mistério, um mergulho nas águas profundas da consciência humana, onde os milagres não são exceções à regra, mas manifestações da regra suprema: a de que o espírito, quando plenamente realizado, governa a matéria. Vamos desvendar quem foi Apolônio, não pelos olhos da academia cética, nem pelos da fé crédula, mas pelos olhos do buscador espiritual — aquele que sabe que a verdade não reside nos extremos, mas no centro vivo, pulsante, misterioso, onde a razão e o mistério se abraçam como irmãos. Vamos percorrer sua vida, seus ensinamentos, seus milagres — e, mais importante, vamos tentar compreender o que esses milagres significam para nós, hoje, neste mundo tão carente de maravilhas autênticas, tão sedento de sabedoria real, tão desesperado por um sinal de que o divino ainda caminha entre nós. Porque Apolônio não pertence ao passado — ele é um espelho do que podemos nos tornar. Um lembrete de que os milagres não morreram — apenas adormeceram em nós. E talvez, ao final desta leitura, você sinta, como eu sinto, que ele não apenas viveu — ele ainda vive. Em cada ato de coragem, em cada gesto de compaixão, em cada momento de clareza intuitiva, em cada escolha alinhada com a verdade interior — Apolônio está lá, sorrindo, sussurrando: “Se eu pude, você também pode.Porque o mesmo fogo que ardia em mim, arde em você.Acenda-o.” Nascido na cidade de Tiana, na província romana da Capadócia (atual Turquia), Apolônio era filho de uma família abastada — seu pai, Gesius, era um cidadão romano de posses, e sua mãe, cujo nome não chegou até nós, era descrita como uma mulher de grande beleza e virtude. Desde o ventre materno, já se dizia que sua vinda era anunciada por sinais celestiais — uma estrela brilhante teria aparecido no céu da Capadócia na noite de seu nascimento, e os sacerdotes do templo de Asclepius, deus da cura, teriam sonhado com a chegada de um “filho dos deuses” que traria sabedoria e cura ao mundo. Mas foi aos quinze anos, após a morte de seu pai, que Apolônio deu o primeiro passo em direção ao seu destino iniciático. Herdando uma fortuna considerável, ele poderia ter seguido a vida confortável de um jovem aristocrata — mas, movido por uma sede insaciável de sabedoria, vendeu todos os seus bens, distribuiu o dinheiro aos pobres, e partiu para a cidade de Éfeso, onde se tornou discípulo do filósofo neopitagórico Euxeno de Hérmias. Foi ali que Apolônio abraçou os ensinamentos de Pitágoras — não apenas como filosofia, mas como modo de vida. Adotou o vegetarianismo rigoroso, renunciou ao vinho e a qualquer forma de luxo, vestiu-se apenas com roupas simples de linho, andou descalço mesmo nos invernos mais rigorosos, e jurou silêncio por cinco anos — um voto de quietude absoluta, durante o qual não proferiu uma única palavra, comunicando-se apenas por gestos e escritos, mergulhando nas profundezas do autoconhecimento e da contemplação interior. Esse período de silêncio não foi um exercício ascético vazio — foi um ritual de purificação, um treinamento da mente, um mergulho no oceano do não-pensamento, onde as ondas da mente se acalmam e o mergulhador pode tocar o fundo — o fundo onde jaz a pérola da sabedoria. E quando Apolônio emergiu desse silêncio, aos vinte anos, ele já não era o mesmo homem. Seus olhos brilhavam com uma luz diferente — a luz daquele que viu o invisível. Sua voz, quando finalmente falou, tinha o timbre da autoridade espiritual — a autoridade que não vem de títulos ou cargos, mas do conhecimento direto da realidade última. E foi com essa voz que ele começou a ensinar — primeiro em Éfeso, depois em Atenas, depois em Roma, depois em todo o mundo conhecido. Mas Apolônio não era um professor que se contentava com palavras. Ele era um mago — no sentido mais puro e sagrado do termo. Um homem que conhecia os segredos da natureza, os caminhos ocultos da mente, as leis não escritas que governam o universo. E foi através de milagres — atos que desafiavam a lógica, que rompiam as correntes do possível — que ele demonstrou a verdade de seus ensinamentos. Porque, para Apolônio, um milagre não era uma violação das leis da natureza — era a manifestação de leis superiores, desconhecidas pela maioria dos homens. Era a prova de que o espírito, quando plenamente realizado, é senhor da matéria. E

Loading

Alquimia Interior

A alquimia, muito além de uma prática medieval para transformar metais em ouro, sempre foi um caminho simbólico de autotransformação. Desde o Egito Antigo, com a tradição hermética atribuída a Hermes Trismegisto, até os tratados medievais, encontramos a ideia de que a matéria é apenas um espelho da alma.  O Corpus Hermeticum já afirmava: “O que está embaixo é como o que está no alto, e o que está no alto é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.” Essa máxima, conhecida como Lei da Correspondência Hermética, mostra que o verdadeiro laboratório alquímico é o ser humano, e que a Grande Obra (Magnum Opus) não se dá apenas nos fornos externos, mas no coração e na consciência. A transformação alquímica interior não ocorre de maneira aleatória, ela é catalisada pela iniciação espiritual.Nas Ordens Esotéricas, a iniciação é um rito de passagem — seja em escolas de mistério do Egito, nos Mistérios de Eleusis, ou nas ordens iniciáticas como a Maçonaria e a Rosa-Cruz. Esse momento marca o despertar do indivíduo para percorrer uma nova estrada, bem mais consciente da necessidade de sua autotransformação. O Neófito, ao adentrar a senda iniciática, simbolicamente mergulha na escuridão da matéria (o chumbo) e é convidado a atravessar provas, reflexões e práticas que visam purificar sua mente e coração. A iniciação é, portanto, a ignição do fogo alquímico, que irá transmutar as imperfeições em virtudes, a ignorância em sabedoria e o egoísmo em amor universal. Carl Gustav Jung, que estudou profundamente os símbolos alquímicos como metáforas da psique, escreveu em Psicologia e Alquimia:“A alquimia representa o processo de individuação, o caminho pelo qual o ser humano integra seus opostos internos e desperta para a totalidade do Self.” Aqui, abro parênteses para elucidar (INDIVIDUAÇÃO, é processo pelo qual uma parte do todo se torna progressivamente mais distinta e independente; diferenciação do todo em partes cada vez mais independentes, e também, processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung 1875-1961.) Assim, a iniciação é o primeiro passo consciente nesse caminho de individuação e transmutação. A partir de sua iniciação, o Neófito aprende a reconhecer seu “chumbo interno”: medos, vícios, condicionamentos e ilusões. É importante destacar, que este reconhecimento não é um ato de julgamento, mas de consciência. O ouro, por sua vez, é o símbolo da essência divina, incorruptível e eterna, presente no âmago de cada ser.  A transformação do chumbo em ouro significa transformar a vida bruta e inconsciente em uma vida iluminada e desperta. Paracelso, grande alquimista do Renascimento, dizia:“A alquimia não se ocupa apenas da preparação de remédios, mas da transformação do ser humano em sua totalidade.” É este ouro interior que a iniciação desperta, e que a disciplina espiritual vai lapidando ao longo da vida. Ao passo em que vai galgando novos degraus em sua escada evolutiva, o discípulo vivencia as provas dos quatro elementos: Terra – domínio do corpo e do mundo material, aprendendo a equilibrar trabalho, sustento e espiritualidade. Água – purificação das emoções, cultivando compaixão e desapego. Ar – expansão da mente, da razão e da inspiração, levando à clareza espiritual. Fogo – chama da vontade e do espírito, força da transformação e da iluminação. Esses elementos se fazem presentes em quase todos os rituais de iniciação. Aqui, também vale destacar cada etapa alquímica pela qual passa o Neófito,  ou Aprendiz — nigredo (morte simbólica), albedo (purificação), citrinitas (esclarecimento) e rubedo (plenitude) — tem paralelo na vivência do iniciado. Mas um dos maiores desafios da alquimia interior é a dissolução do ego, pois o iniciado deve aprender, gradualmente, a romper com as ilusões da separatividade, vencer suas paixões, reconhecendo-se como parte do Todo, para então, fazer novos progressos em sua Senda.Nesse processo, ocorre a morte iniciática — simbolizada pelo silêncio, pelo recolhimento e pelo enfrentamento das próprias sombras. Mas dessa morte surge o renascimento em um nível mais elevado de consciência. Como afirmava Hermes Trismegisto:“Do fogo nasce a luz, da morte nasce a vida, e pela transformação o ser alcança a eternidade.” Ao longo do caminho, o iniciado descobre que o verdadeiro “elixir da longa vida” não é físico, mas espiritual: é a consciência da imortalidade da alma.Esse elixir é experimentado quando o buscador integra em si a matéria e o espírito, reconhecendo o sagrado em cada instante da vida cotidiana. A alquimia interior não afasta o ser humano do mundo, mas o devolve a ele, agora iluminado e consciente. A iniciação desperta o fogo, mas a persistência, a disciplina e a entrega ao divino mantêm a obra em andamento.Assim, cada crise se torna um cadinho, cada experiência uma destilação, e cada vitória interior, um passo rumo ao ouro espiritual. Nas palavras de Fulcanelli, grande alquimista do século XX:“A Pedra Filosofal é o próprio homem que, após longo trabalho, se tornou perfeito.” Swami Caetano M∴I∴ e F R+C

Loading