Alquimia Interior

A alquimia, muito além de uma prática medieval para transformar metais em ouro, sempre foi um caminho simbólico de autotransformação. Desde o Egito Antigo, com a tradição hermética atribuída a Hermes Trismegisto, até os tratados medievais, encontramos a ideia de que a matéria é apenas um espelho da alma. O Corpus Hermeticum já afirmava: “O que está embaixo é como o que está no alto, e o que está no alto é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.” Essa máxima, conhecida como Lei da Correspondência Hermética, mostra que o verdadeiro laboratório alquímico é o ser humano, e que a Grande Obra (Magnum Opus) não se dá apenas nos fornos externos, mas no coração e na consciência. A transformação alquímica interior não ocorre de maneira aleatória, ela é catalisada pela iniciação espiritual.Nas Ordens Esotéricas, a iniciação é um rito de passagem — seja em escolas de mistério do Egito, nos Mistérios de Eleusis, ou nas ordens iniciáticas como a Maçonaria e a Rosa-Cruz. Esse momento marca o despertar do indivíduo para percorrer uma nova estrada, bem mais consciente da necessidade de sua autotransformação. O Neófito, ao adentrar a senda iniciática, simbolicamente mergulha na escuridão da matéria (o chumbo) e é convidado a atravessar provas, reflexões e práticas que visam purificar sua mente e coração. A iniciação é, portanto, a ignição do fogo alquímico, que irá transmutar as imperfeições em virtudes, a ignorância em sabedoria e o egoísmo em amor universal. Carl Gustav Jung, que estudou profundamente os símbolos alquímicos como metáforas da psique, escreveu em Psicologia e Alquimia:“A alquimia representa o processo de individuação, o caminho pelo qual o ser humano integra seus opostos internos e desperta para a totalidade do Self.” Aqui, abro parênteses para elucidar (INDIVIDUAÇÃO, é processo pelo qual uma parte do todo se torna progressivamente mais distinta e independente; diferenciação do todo em partes cada vez mais independentes, e também, processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung 1875-1961.) Assim, a iniciação é o primeiro passo consciente nesse caminho de individuação e transmutação. A partir de sua iniciação, o Neófito aprende a reconhecer seu “chumbo interno”: medos, vícios, condicionamentos e ilusões. É importante destacar, que este reconhecimento não é um ato de julgamento, mas de consciência. O ouro, por sua vez, é o símbolo da essência divina, incorruptível e eterna, presente no âmago de cada ser. A transformação do chumbo em ouro significa transformar a vida bruta e inconsciente em uma vida iluminada e desperta. Paracelso, grande alquimista do Renascimento, dizia:“A alquimia não se ocupa apenas da preparação de remédios, mas da transformação do ser humano em sua totalidade.” É este ouro interior que a iniciação desperta, e que a disciplina espiritual vai lapidando ao longo da vida. Ao passo em que vai galgando novos degraus em sua escada evolutiva, o discípulo vivencia as provas dos quatro elementos: Terra – domínio do corpo e do mundo material, aprendendo a equilibrar trabalho, sustento e espiritualidade. Água – purificação das emoções, cultivando compaixão e desapego. Ar – expansão da mente, da razão e da inspiração, levando à clareza espiritual. Fogo – chama da vontade e do espírito, força da transformação e da iluminação. Esses elementos se fazem presentes em quase todos os rituais de iniciação. Aqui, também vale destacar cada etapa alquímica pela qual passa o Neófito, ou Aprendiz — nigredo (morte simbólica), albedo (purificação), citrinitas (esclarecimento) e rubedo (plenitude) — tem paralelo na vivência do iniciado. Mas um dos maiores desafios da alquimia interior é a dissolução do ego, pois o iniciado deve aprender, gradualmente, a romper com as ilusões da separatividade, vencer suas paixões, reconhecendo-se como parte do Todo, para então, fazer novos progressos em sua Senda.Nesse processo, ocorre a morte iniciática — simbolizada pelo silêncio, pelo recolhimento e pelo enfrentamento das próprias sombras. Mas dessa morte surge o renascimento em um nível mais elevado de consciência. Como afirmava Hermes Trismegisto:“Do fogo nasce a luz, da morte nasce a vida, e pela transformação o ser alcança a eternidade.” Ao longo do caminho, o iniciado descobre que o verdadeiro “elixir da longa vida” não é físico, mas espiritual: é a consciência da imortalidade da alma.Esse elixir é experimentado quando o buscador integra em si a matéria e o espírito, reconhecendo o sagrado em cada instante da vida cotidiana. A alquimia interior não afasta o ser humano do mundo, mas o devolve a ele, agora iluminado e consciente. A iniciação desperta o fogo, mas a persistência, a disciplina e a entrega ao divino mantêm a obra em andamento.Assim, cada crise se torna um cadinho, cada experiência uma destilação, e cada vitória interior, um passo rumo ao ouro espiritual. Nas palavras de Fulcanelli, grande alquimista do século XX:“A Pedra Filosofal é o próprio homem que, após longo trabalho, se tornou perfeito.” Swami Caetano M∴I∴ e F R+C
A Influência dos Planetas na Espiritualidade Humana

Desde os primórdios da humanidade, o ser humano olhou para o céu em busca de respostas, encantando-se com os movimentos regulares das estrelas e planetas, e mesmo hoje, a não ser que seja um ser, desprovido de sensibilidade, não se encanta, com o brilho da lua, o nascer e pôr do sol, ou com um céu repleto de estrelas, visto a partir de uma cidade do interior, onde não há tanta poluição, e a noite favorece esse espetáculo. Muito antes da ciência moderna, nossos ancestrais já percebiam que havia uma ligação íntima entre os ritmos celestes e os ciclos da vida na Terra. Agricultores observavam as fases da Lua, sacerdotes egípcios alinhavam templos com a posição dos astros, e astrólogos caldeus mapearam a influência dos planetas sobre o destino humano, tudo isso, sem falar no período próprio para a pesca. Essa percepção deu origem à ideia de que o cosmos não é apenas um cenário distante, mas uma força viva que interage com nossa consciência e espiritualidade. Assim, quando falamos sobre a influência dos planetas, não nos referimos apenas ao impacto físico ou astronômico, mas também ao reflexo simbólico e energético que cada corpo celeste exerce sobre a alma humana. Em uma visão esotérica, o Sol e a Lua ocupam posição central, onde Sol simboliza a luz da consciência, o princípio vital, a centelha divina que anima o ser humano, estando ligado à identidade, ao eu profundo, ao brilho único de cada no mundo. Espiritualmente, é o chamado para expressarmos nossa missão e irradiarmos nossa essência. A Lua, por outro lado, representa o inconsciente, o mundo das emoções, da intuição e da memória ancestral. Assim, se o Sol é o “eu que escolhe”, a Lua é o “eu que sente”. Sua influência espiritual nos conduz a uma viagem interior no nosso Ser, a compreender os mistérios da sensibilidade e a reconciliar luz e sombra em nossa caminhada. Juntos, Sol e Lua lembram que o equilíbrio entre razão e emoção, consciência e intuição, é fundamental para o desenvolvimento espiritual. Falemos agora, daquele que é conhecido na mitologia como o deus mensageiro, Mercúrio, que ocupa na espiritualidade o papel de intermediário entre os planos. Ele rege a mente, a comunicação, a capacidade de interpretar sinais e traduzir experiências. No campo místico, Mercúrio é o planeta que inspira o iniciado a decifrar símbolos, mantras e escrituras sagradas, favorecendo o despertar da consciência através da palavra e do pensamento. Sua influência espiritual nos ensina que toda jornada requer clareza mental, mas também abertura para escutar o que vem dos planos sutis. Aqui, abro parênteses (é exatamente na sutileza dos detalhes, que se encontram os mais profundos mistérios). Assim, Mercúrio nos convida a compreender que a linguagem humana pode ser ponte para o divino, e que a verdadeira sabedoria nasce do diálogo constante entre o mundo visível e o invisível. Vênus é tradicionalmente associado à beleza, ao amor e à harmonia. No entanto, no plano espiritual, seu papel vai muito além das relações afetivas, simboliza a busca pela união sagrada, pela harmonia entre o humano e o divino, e pelo cultivo de valores que elevam a alma, como compaixão, generosidade e a capacidade de enxergar o sagrado em tudo. Espiritualmente, Vênus nos ensina que a verdadeira beleza não é apenas estética, mas uma expressão da ordem cósmica refletida em nossa vida interior. Quando nos abrimos à energia de Vênus, compreendemos que o amor é a linguagem universal que conecta todas as almas, sendo um caminho direto para a iluminação. Marte é conhecido como o planeta da ação e da luta, mas na dimensão espiritual, sua influência revela um aspecto mais profundo: a força da vontade. Marte representa a energia que impulsiona o buscador a superar obstáculos internos, a disciplinar os desejos e a enfrentar as próprias sombras. Essa energia, quando equilibrada, torna-se coragem para trilhar o caminho da transformação, mantendo o foco e a perseverança diante das provas espirituais. Marte lembra que a evolução não é feita apenas de contemplação, mas também de luta consciente contra as ilusões do ego. É ele quem nos dá a chama interior para não desistir, para seguir adiante na busca da verdade. Chamado de o “grande benéfico”, Júpiter é o planeta da expansão, da fé e da sabedoria. No campo espiritual, ele representa a abertura da consciência para verdades maiores e a busca por um sentido elevado para a vida. Júpiter inspira a confiança na providência divina, o estudo das leis universais e a prática da justiça como expressão da ordem cósmica. Quando sua influência se manifesta, sentimos o impulso de transcender os limites pessoais e nos conectar a algo maior do que nós mesmos. Assim, Júpiter é o guia que desperta o senso de missão, a devoção à verdade e o entusiasmo pela caminhada espiritual. Saturno é muitas vezes temido, pois está ligado às limitações, responsabilidades e lições da vida. Mas, no caminho espiritual, sua influência é de extrema importância. Saturno é o guardião do tempo, o mestre severo que nos confronta com as consequências de nossas escolhas. Ele nos ensina paciência, disciplina e maturidade, virtudes essenciais para a verdadeira evolução da alma. Embora suas provas possam parecer duras, elas são, na verdade, convites ao amadurecimento e ao desapego das ilusões. Saturno nos mostra que a espiritualidade não é feita apenas de êxtases místicos, mas também de compromisso, perseverança e da coragem de enfrentar o que há de mais profundo em nós. Enquanto os planetas clássicos atuam mais diretamente no plano pessoal, os planetas exteriores — Urano, Netuno e Plutão — são considerados regentes da espiritualidade superior. Urano simboliza a liberdade da mente, a iluminação repentina, o despertar para novas formas de ver o mundo. Netuno representa o misticismo, a dissolução do ego, a união com o Todo e a experiência direta do sagrado. Já Plutão atua como força de morte e renascimento, levando a alma a atravessar profundas transformações e a renascer mais forte, mais pura, mais próxima da essência divina. Esses planetas nos lembram que
Sincronicidade

Há momentos na vida em que nos deparamos com situações tão precisas e cheias de significado que nos perguntamos se o acaso realmente existe. Algo como, você pensa em alguém e, nesse exato momento, essa pessoa liga ou envia uma mensagem. Do mesmo modo, você sonha com um símbolo ou situação e, pouco depois, encontra o mesmo cenário na vida. Esses acontecimentos são mais do que meros acasos; eles se enquadram no conceito de sincronicidade, desenvolvido pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung, mas que encontra eco em diversas tradições espirituais e esotéricas desde a Antiguidade. A sincronicidade não é coincidência, mas uma espécie de linguagem secreta entre o indivíduo e o cosmos, como se o universo falasse em símbolos e sinais para nos orientar em nosso caminho evolutivo. Reconhecê-la é abrir os olhos para a possibilidade de que o universo não é um mecanismo cego, mas um organismo vivo, inteligente, que se manifesta em harmonia com nossa psique e nossas escolhas. Jung descreveu a sincronicidade como a ocorrência simultânea de dois ou mais eventos com ligação significativa, mas sem relação causal direta. Em outras palavras, trata-se de quando algo externo acontece em sintonia com o estado interno da pessoa, revelando uma conexão oculta entre mente e realidade. Para ilustrar, imagine uma pessoa que sonha com um animal específico, como um corvo, e no dia seguinte encontra esse animal de forma inusitada, em um contexto que lhe traz uma mensagem intuitiva. Para a lógica racionalista, trata-se de acaso; para a visão junguiana, é uma resposta simbólica do inconsciente coletivo. O conceito rompe com a visão linear de causa e efeito e nos coloca diante da possibilidade de uma ordem acausal, onde não é a lógica do tempo ou da mecânica que domina, mas a lógica do significado. Assim, a sincronicidade é uma ponte entre o mundo interior da alma e o mundo exterior da matéria, revelando que ambos são faces de uma mesma realidade profunda. Jung também relacionou a sincronicidade com sua parceria intelectual com o físico Wolfgang Pauli, prêmio Nobel, que explorava a ideia de que a física quântica apontava para interconexões invisíveis entre os fenômenos. Essa aproximação reforça a percepção de que ciência e espiritualidade podem dialogar na busca de compreender esses mistérios. Muito antes de Jung, civilizações antigas já percebiam que o universo se comunica por sinais. Na Grécia Antiga, o oráculo de Delfos funcionava como um espaço onde símbolos e acontecimentos eram interpretados como mensagens divinas. Não se tratava de previsões mecânicas, mas da leitura dos desígnios dos deuses na vida cotidiana. No Egito Antigo, a observação dos astros e dos fenômenos da natureza orientava a vida espiritual e social. O movimento do Nilo, o ciclo das estrelas e o comportamento dos animais eram vistos como manifestações de Maat, a ordem cósmica. Na tradição chinesa, o I Ching revela a ideia de que os acontecimentos não são aleatórios, mas refletem padrões universais que podem ser lidos como mensagens do Tao. Cada hexagrama funciona como um espelho do momento presente, permitindo que o consulente enxergue o significado oculto dos acontecimentos. Nas culturas xamânicas, os encontros com animais de poder ou sinais da natureza eram compreendidos como respostas espirituais, indicando cura, proteção ou mudança de caminho. Esses exemplos mostram que a sincronicidade é, em essência, uma percepção universal: a vida sempre nos envia sinais, basta estarmos atentos para interpretá-los. Podemos compreender a sincronicidade como uma linguagem simbólica. O universo não fala em palavras, mas em símbolos, coincidências, encontros inesperados, sonhos reveladores, repetições numéricas ou situações aparentemente improváveis. Quando você vê a mesma sequência numérica repetidas vezes (11:11, 22:22, 333), isso pode ser lido como um chamado do cosmos, um lembrete de que há algo maior acontecendo em sua vida. Quando alguém aparece em sua jornada no momento exato em que você necessita de apoio, essa “coincidência” pode ser vista como a materialização de uma força invisível que o guia. Quando símbolos recorrentes aparecem em sonhos e depois no mundo desperto, estamos diante de um diálogo entre o inconsciente e a realidade objetiva. Essa linguagem não deve ser entendida literalmente. Ela funciona como a linguagem dos mitos e arquétipos: uma comunicação que ultrapassa a razão e toca a alma. O buscador espiritual aprende, pouco a pouco, a traduzir esses sinais, sabendo que cada sincronicidade é como uma “chave” para abrir portas de consciência. No caminho espiritual, a sincronicidade é mais do que curiosidade, ela é uma bússola interna e externa. O iniciado percebe que não está sozinho em sua caminhada, pois forças invisíveis colaboram para seu desenvolvimento. O encontro inesperado com um mestre, a leitura de um livro encontrado “por acaso” ou a escuta de uma frase que ressoa profundamente podem se tornar verdadeiros pontos de virada. Cada sincronicidade funciona como um espelho refletindo o estado interno do indivíduo e ao mesmo tempo o orientando-o para além dele. É como ouvir o universo dizendo que está contigo, e que podes seguir em frente, confiar. Além disso, a sincronicidade fortalece a fé e a entrega. Ela mostra que existe uma inteligência amorosa sustentando a vida, uma ordem que transcende o controle humano. Por isso, os antigos místicos diziam: “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. A aparição do mestre é, em si, um ato de sincronicidade. Na Ordem Maçônica, a sincronicidade manifesta-se como um elo invisível que une o Iniciado à tradição milenar dos Mistérios. O maçom, ao adentrar o Templo simbólico, é introduzido a um universo onde nada é casual, cada gesto, cada palavra ritualística e cada símbolo possui um propósito oculto, revelando-se de acordo com o estágio de compreensão interior do obreiro. Assim, aquilo que o profano poderia interpretar como mera coincidência, para o Iniciado torna-se sinal de que está em sintonia com a Ordem e com o próprio cosmos. A sincronicidade, nesse contexto, pode surgir na forma de encontros significativos, de frases que ressoam como respostas a perguntas íntimas ou até mesmo de símbolos que se repetem em diferentes circunstâncias, como se indicassem ao maçom que
O Caminho do Iniciado

Para falar sobre o caminho do Iniciado, faz-se necessário que saibamos, inicialmente, a etimologia desse termo. Dessa forma, esclareço que, a palavra “Iniciado” tem sua raiz no latim initiare, que significa “começar”, “entrar” ou “adentrar”. No contexto religioso e filosófico da Antiguidade, initium era utilizado para designar tanto o início de um percurso quanto a participação em rituais secretos que marcavam a passagem para uma nova condição espiritual. Assim, o termo “Iniciado” não se refere apenas a quem começou algo, mas àquele que atravessou uma experiência transformadora, uma renovação, um renascimento, e passou a integrar um círculo de conhecimentos reservados. Nas antigas escolas de mistérios — como as de Elêusis, no mundo grego, ou as práticas egípcias relacionadas ao culto de Ísis e Osíris — o iniciado era aquele que, após provas e rituais, recebia acesso a ensinamentos velados ao público comum. Esses conhecimentos não eram meramente intelectuais: tratava-se de vivências simbólicas, ligadas à morte e ao renascimento espiritual, capazes de conduzir o buscador a um estado mais elevado de consciência. Com o tempo, a palavra se expandiu para além dos ritos religiosos, passando a designar qualquer indivíduo que percorresse um processo de autodescobrimento e iluminação interior. Hoje, falar em “Iniciado” é evocar a imagem daquele que trilha o caminho do autoconhecimento, guiado pelo desejo de superar a ignorância e de aproximar-se das verdades universais. Assim, o Iniciado é aquele que dá início a uma jornada de transformação. Ele não é definido pelo título, mas pela disposição em viver a experiência de se reinventar, desvelar símbolos e encontrar, dentro de si, as respostas que unem o humano ao divino. Desde sempre, os seres humanos buscam e compreender os mistérios que norteiam a sua existência. Entre mitos, símbolos e tradições espirituais, surge sempre a figura do Iniciado, aquele que atravessa os véus do mundo comum e se aventura nos reinos ocultos da consciência. E busca desenfreada e interminável, é que compõe O Caminho do Iniciado, que não é uma estrada externa, nem depende de um lugar físico. Muito ao contrário, é um percurso interior, feito de silêncios, descobertas e transformações que conduzem o buscador a uma nova forma de ser e de viver, a partir de novos entendimentos, e sobretudo de novos comportamentos. Embora cada tradição espiritual apresente símbolos, rituais e linguagens diferentes, todas convergem para a mesma essência, que é a iniciação, um momento mágico em que o indivíduo deixa de ser conduzido apenas pelas ilusões do mundo material e começa a trilhar a senda da sabedoria interior. Nem todos ouvem o chamado da iniciação, pois esse, como já mencionei, é interno, diferindo do chamado para a iniciação, que é externo, como um convite para participar de alguma cerimônia, para a qual o convidado só vai por mera curiosidade ou vaidade. A maioria das pessoas prefere permanecer presa ao ciclo comum de trabalho, preocupações e prazeres passageiros, sem suspeitar que a vida guarda dimensões muito mais profundas. O iniciado, entretanto, percebe uma inquietação inexplicável, uma sensação de que existe algo além, do que seus cinco sentidos possam oferecer, muito além dessa realidade palpável. Platão, em seu famoso mito da caverna, descreveu essa experiência como a saída do homem das sombras em direção à luz: “Não é natural que a alma, ao voltar-se para a luz, se ofusque, mas depois se acostume e contemple a realidade verdadeira?” (República, Livro VII). O chamado iniciático é justamente esse impulso de abandonar as sombras do mundo aparente e buscar a luz da verdade. Esse convite pode vir através de crises, perdas ou de experiências místicas que abalam as certezas, ou como já mencionei, de um chamamento interno. O primeiro passo é aceitar a jornada, mesmo sem compreender todos os seus destinos. Como dizia Hermes Trismegisto, no Caibalion: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.” Ao ouvir o chamado, o buscador começa a perceber que a realidade material é apenas um reflexo de algo maior e mais profundo. Mas o que é de fato uma Iniciação, senão, um ritual da morte e do renascimento, do desapego e da conquista, do abandono do velho para alcançar o novo. Em praticamente todas as tradições iniciáticas, a iniciação está ligada exatamente a um ritual de morte simbólica e renascimento espiritual. Nos Mistérios de Elêusis, na Grécia, o iniciado participava de representações simbólicas da descida de Perséfone ao submundo e de seu retorno à superfície, aprendendo que a vida e a morte são apenas fases de um mesmo ciclo. Já no Egito Antigo, os rituais de Osíris simbolizavam a dissolução do ego e o renascimento da consciência espiritual. A tradição hermética e alquímica também é clara: “Solve et Coagula” — dissolver para depois recompor. É necessário desintegrar os antigos padrões para que um novo ser, mais consciente e alinhado com a Verdade, possa nascer. O batismo cristão e a ressurreição de Cristo trazem a mesma mensagem: morrer para o “homem velho” e renascer para o espírito. Na Maçonaria, o neófito é conduzido a refletir sobre a própria mortalidade, compreendendo que a vida só adquire pleno sentido quando iluminada pela consciência da eternidade, a Verdadeira Luz. O caminho iniciático não é isento de desafios, e é justamente através das provas que o buscador é lapidado, como a pedra bruta que precisa ser polida, para revelar sua forma e brilho perfeitos. Na tradição dos Mistérios antigos, o candidato passava por ritos simbólicos que representavam os quatro elementos: fogo, água, ar e terra. Cada um exigia coragem e entrega, preparando a alma para experiências superiores. Na Prova do Silêncio, os antigos sábios diziam: “Para o iniciado, o silêncio é ouro.” Essa prova exige calar a mente barulhenta e aprender a escutar a voz interior. Pitágoras, por exemplo, impunha aos discípulos um longo período de silêncio antes que pudessem falar, ensinando que a verdadeira sabedoria nasce mais da escuta do que da fala. Na Prova da Solidão, o buscador descobre que a iniciação é, em essência,
O Que é Concerto?

Há alguns dias atrás, pus-me a estudar sobre a história da música. Ouvi sobre a importância do piano na música clássica, instrumento do qual, mesmo em obras escritas para o violino, não se prescindia, e era pois escrita, à parte, a partitura daquele também. “Concerto” vem do Latim concertare, o que significava, originalmente, discordar ou contender. Parece até paradoxal, uma vez que “concerto” alude a uma orquestra harmônica. Todavia, em linguagem esotérica — e aqui estou a pensar no Bhagavad-Gita — sabemos que Arjuna é instado por Krishna a contender, discordar e lutar contra os inimigos do primeiro. Ao que parece, a harmonia, a concórdia (vale dizer, a paz) vêm do conflito. A música clássica nos mostra isso muito bem. Tantos instrumentos aparentemente antagônicos, passagens ora rápidas, ora lentas; ora alegres, ora fúnebres, dependendo daquilo que o compositor quer dizer. Tudo isso, porém, acontece sob o comando deste. E assim conduzamos a nossa orquestra! LEONARDO P. DE ALMEIDA C.M.
Mistério, Místico e Misticismo

Mistério, místico e misticismo. Estas três palavras, obviamente de significado correspondente, desde o final do século passado têm sido utilizadas com mais frequência, principalmente no meio crescente de pessoas que buscam alguma informação sobre princípios metafísicos e filosóficos, o que é natural, pois entramos na célebre Era de Aquarius, onde a sensibilidade do ser humano e o interesse por assuntos espirituais progressivamente vai aumentando. Eu mesmo tenho utilizado estes verbetes com frequência em meus artigos. Mas será que utilizamos estas palavras corretamente? Será que sabemos seu real significado? O senso comum sobre estes termos é que se referem a tudo aquilo que é considerado sobrenatural, além da compreensão natural, racional e científica, e mágico. Há mesmo quem entenda estas expressões como relacionadas a práticas contrárias a fé religiosa, seja ela qual for. E isto é bastante natural e compreensível pelas razões que veremos adiante. Os dicionários da língua portuguesa definem o verbete mistério da seguinte maneira: “tudo quanto a razão não pode explicar ou compreender; tudo quanto tem causa oculta ou parece inexplicável; coisa oculta, de que ninguém tem conhecimento; reserva, segredo; proposição difícil de compreender; enigma; ato inexplicável”. É isso mesmo, as definições parecem bem razoáveis e claras. Mas não para aqueles que querem ver “além das letras”. Para este grupo de pessoas acometidas pela sede do saber, é necessário descobrir de onde e por que surgiu a expressão? Afinal, isto em si já é um mistério. A expressão originou-se do grego mystérion, mas seu significado vem do antigo Egito, que foi o verdadeiro celeiro da filosofia grega. Helena Petrovna Blavatski, a famosa “Madame Blavatski”, mãe da Teosofia e considerada uma das maiores ocultistas de todos os tempos, explica numa forma um tanto hermética, como aliás não poderia deixar de ser, que havia duas classes de Iniciados no Egito, e que tal distinção foi mantida pelos gregos e romanos: os Epoptae e os Mystos. Notem que a grafia já é grega, e refere-se aos Iniciados nos Mistérios (ou Arcanos) Maiores no primeiro caso, e aos Menores no segundo. Epoptae significa “aquele que vê as coisas tais quais são”, e Mystos “aquele que vê as coisas tal como parecem ser”. Madame Blavatski afirma também que em determinada época os primeiros, ou seja, aqueles que realmente compreendem o verdadeiro sentido do Universo, que são os Grandes Iluminados da História, ou os Avatares, tornaram-se reclusos e formaram da Grande Fraternidade Branca, que alguns autores julgam estar localizada em algum lugar do Tibet inacessível aos simples mortais; e os Mystos permaneceram “preparando” a humanidade para compreensão da Verdade, dando origem mais tarde aos Maçons, Rosacruzes, e toda classe de “Iniciados Modernos”. Não vou me deter na análise dos Epoptae, mesmo porque, independentemente da hipótese por muitos considerada fantasiosa da existência de uma “morada de Iluminados” denominada Grande Fraternidade Branca, a Iluminação dos Epoptae é alcançada por poucos, e o cerne de nossa análise é a expressão “mistério”. O fato é que os Mystos continuaram trabalhando junto aos seres humanos comuns, e formando novos Iniciados. São famosos os Mistérios de Ísis e Osíris, os Mistérios Persas (de onde surgiu a expressão “mago”); os Mistérios Órficos; os Mistérios de Elêusis, e os Mistérios de Mitra. A globalização cultural promovida pelas conquistas do Império Romano tornou a expansão das Escolas Iniciáticas apenas uma questão de tempo, e após a conversão de Roma à fé Cristã, o próprio Cristianismo absorveu o conceito na formação de seus sacerdotes. A Doutrina Cristã exorta até nossos dias o “Mistério da Fé”. Portanto, Mistério nada mais é que todo conhecimento velado, esotérico, podendo ser metafísico, filosófico ou material, ensinado apenas a Iniciados, ou seja, fora do alcance de pessoas pouco comprometidas com os aspectos espirituais do Universo e a humanidade em si; místico é todo aquele que Iniciado ou não busca a Verdade e uma melhor compreensão da Grande Obra de Deus, e misticismo é exatamente esta prática sagrada, dedicada e nobre, material e espiritual, humana e divina, ascensional e progressista. Resta claro também que os mistérios tratados aqui não são os mesmos dos livros de Agatha Christie, que aliás são muito bons, não é mesmo? SERGIO EMILIÃO M.I. F R+C {backbutton}
Sexta-Feira Treze e as Supertições

Tenho certeza que caso nos fosse perguntado todos e cada um de nós seriamos capazes de mencionar mais de um tipo de superstição, e isto se dá porque indubitavelmente elas são inúmeras. Mas, afinal, o que é superstição? O vocábulo superstição vem do latim superstitio onis, e significa “crença contrária à fé e à própria razão”. A palavra superstição deriva de supersies, também latim, que quer dizer “sobrevivente”, ou “o que está sobre algo”. Podemos constatar a propriedade dessa análise pelo fato de algumas superstições sobreviverem a séculos mesmo após a perda de sua origem cultural, como veremos adiante. Inicialmente o vocábulo significava também vidente, ou profeta, pois o termo era empregado como referência a tentativa do ser humano de explicar algo fora dos domínios da razão, buscando numa instância sobrenatural o sentido e o significado de fatos aparentemente inexplicáveis. Atualmente o conceito de superstição é considerado como o resultado de processos derivados do preconceito em relação a certas práticas, quando estas não se coadunam com as opiniões ou os princípios religiosos de determinada pessoa. Em outras palavras: o indivíduo muitas vezes acometido por fanatismo em relação à sua religião, designa como supersticiosas as atividades ou preceitos de outra doutrina, por não se ajustarem a seus preceitos religiosos pessoais. Não obstante, a superstição não é um conceito cujo significado possa depender da avaliação particular de cada indivíduo. Ela é o resultado de complexos mentais antiquíssimos, que atribuem um caráter religioso e sagrado a determinados fatos ou circunstâncias, desprovidos de conexão com qualquer tipo de prática religiosa ou filosófica presentes numa dada cultura. São crenças infundadas, baseadas em fatos isolados e fortuitos. Além disso, a superstição é na maioria das vezes resquício de antigas práticas realizadas em cultos atualmente inexistentes. Um exemplo disso é o atual costume de bater na madeira para “cortar” alguma negatividade. A origem desse gesto reside nas religiões pagãs que acreditavam que as árvores eram habitadas por divindades, e que ao batermos nelas estaríamos chamando pelo espírito desses deuses. Como hoje em dia não vivemos mais em bosques, mas sim em cidades, substituiu-se as árvores pelo seu produto: a madeira, e assim bate-se em portas, móveis, etc. A superstição leva à prática de gestos, rituais e atitudes contrárias à razão, e cujo fundamento reside nos sentimentos de temor e medo. Ainda de acordo com a etimologia da palavra, uma religião ou prática religiosa, por mais estranha que pareça, não pode ser chamada de superstição desde que seja aceita e praticada pela comunidade, ou, pelo menos, por parte dela. Ela passa a ser, em suma, a aceitação de preceitos e crenças religiosas estranhas e inadequadas aos costumes e sistemas de uma dada sociedade. Em nossa sociedade existem diversos costumes aceitos e praticados frequentemente, sem sofrer qualquer tipo de contestação, mas que, em última instância nada mais são do que o resultado de superstições. Este é o caso, por exemplo, do uso do trevo de quatro folhas como símbolo de sorte. Além disso, existem outras práticas que foram assimiladas por nossa cultura e tratadas com tanta naturalidade que ocultam sua verdadeira natureza supersticiosa. Como exemplo disso há o Carnaval, que é uma reminiscência de ritos pagãos; o hábito de dar a mão como forma de saudação, e a decoração de pinheiros na época do Natal. Segundo o filósofo e místico Baruch Spinoza, dois são os atributos de um indivíduo supersticioso: a inconstância e a credulidade. Spinoza descreve estes dois atributos com o mesmo vocabulário médico que os romanos desde Cícero utilizaram para descrever as paixões do ânimo. Como inconstância, a superstição é equivalente à insanidade (insannia), ou seja, é uma disposição passional do ânimo que bloqueia seu potencial de pensar, sua sã razão. Mens sana in corpore sano, já diziam os estoicos. A insanidade é uma doença que bloqueia a mente sadia. Como credulidade, a superstição é equivalente ao delírio, uma disposição passiva que nada mais é do que a confusão entre a imaginação e a razão, entre ideias adequadas e inadequadas. O crédulo acredita no que lhe aparece, e não distingue o sonho da vigília. Spinoza afirma ainda que a causa da superstição é o medo, mas, devemos observar que nem todo medo é causa de superstição. Em resumo, podemos dizer que Spinoza, em sua obra, faz uma severa crítica aos desejos imoderados que tornam os homens escravos de suas próprias paixões. A ideia de que a mente humana no seu esforço para compreender a realidade é capaz de operar a níveis diferentes é tão antiga quanto a própria filosofia. Há vinte e quatro séculos Platão definiu uma diferença entre o que chamou de “opinião” e “conhecimento”. Platão defendia que “opinião” é uma espécie de consciência incerta, confinada ao particular, inexata e sujeita à mudança, ao passo que o conhecimento é certo, universal, exato e verdadeiro. Cada ser humano começa por operar na vida ao nível da opinião, e só com grande esforço pode escapar-lhe e elevar-se ao nível do conhecimento. Chamou a esse esforço de “educação”, e afirmava que era o meio para abrirmos os olhos da mente para realidades que do ponto de vista da opinião não podem sequer ser imaginadas. Entendo que a distinção que se faz atualmente entre Ciência e superstição é a versão moderna da teoria de Platão. Todos reconhecem que a Ciência revelou verdades extraordinárias. Levou o homem à Lua, erradicou doenças mortais e conduziu-nos à era dos computadores. Quase todos reconhecem também que as superstições são tolices. A superstição leva as pessoas a evitarem passar por baixo de escadas, quebrar espelhos e derramar sal sobre a mesa. Porém, ainda não chegamos a um acordo sobre o que é Ciência, ou conhecimento, e o que é superstição. O que é Ciência para uns pode ser superstição para outros. Por exemplo: será que os símbolos Maçônicos são superstições? Com certeza todos Maçons dirão categoricamente que não, porém, será esta a mesma opinião daqueles que não são? O que será que eles pensam sobre o Compasso, o Esquadro, e o “Olho Que Tudo
Esotérico e Esoterismo

O adjetivo esotérico e o substantivo esoterismo ganharam no século passado a conotação de tratar-se de tudo aquilo que é ligado ao espiritual, ao metafísico, ao ocultismo, à magia, ao sobrenatural e por aí afora. Com isso é comum entre nós utilizarmos estas expressões para nos referirmos a terapias alternativas, matérias ligadas a filosofia e religião, e até mesmo a superstição. Porém isso é um erro. O termo esotérico, e consequentemente sua prática ou atributo, o esoterismo, não possuía originalmente este significado atual por vezes fantasioso. A maioria dos autores defende que a origem da expressão se deve ao filósofo grego Pitágoras de Samos e da Escola Iniciática por ele fundada na Grécia que recebeu o seu nome. Jâmblico (240-330 a.C.) assim se referia aos discípulos de Pitágoras: “Estes, se tivessem sido julgados dignos de participar nos ensinamentos graças ao seu modo de vida e à sua civilidade, após um silêncio de cinco anos, tornavam-se daí em diante esotéricos, eram ouvintes de Pitágoras, usavam vestes de linho e tinham direito a vê-lo”. Particularmente entendo que o conceito é bem anterior a Escola Pitagórica, e que foi importado do Egito. Mas, de toda forma, não há dúvida de que o verbete utilizado por nós ocidentais originou-se do idioma grego. Além do mais, os princípios e regras Iniciáticas adotadas por Pitágoras em sua escola eram exatamente os mesmos utilizados pelas Escolas Iniciáticas do Egito. Por esta razão creio que a análise possa prosseguir a partir da Grécia. Pitágoras ministrava ensinamentos mais complexos a um grupo seleto de Iniciados que se reuniam num local reservado, discreto e protegido de curiosos, formando uma espécie de círculo fechado, que originou o verbete esotérico, do grego eisô ou êso, (do lado de dentro, internamente, como em esôfago, por exemplo), acrescido do sufixo teros que é um comparativo que dá a ideia do significado do prefixo. Assim, aqueles que tinham permissão para participar de seu círculo íntimo de discípulos, que recebia ensinamentos mais elaborados e de compreensão mais difícil para os cidadãos comuns eram chamados de esôterikos. Em contrapartida, havia também os seguidores que não tinham condições de receber informações de nível mais elevado, e o povo em geral. Estes recebiam ensinamentos mais simples, de forma aberta e publicamente, dando origem a palavra eksôteriko, derivada do prefixo eksô (do lado de fora, externo) e do mesmo sufixo de seu antônimo, citado no parágrafo anterior. Vimos isso se repetir mais tarde com Jesus e seu círculo fechado de Apóstolos ao qual segundo os Evangelhos eram ministrados ensinamentos velados, mais complexos, enquanto o povo era ensinado por meio de parábolas. O que deve ser observado é que apesar de possuir princípios elevados e filosóficos em sua doutrina, a Escola Pitagórica tratava também em seu meio mais íntimo de estudos avançados da Ciência, como Matemática e Geometria, por exemplo. Isto quer dizer que o adjetivo esotérico originalmente era aplicado a todo ensinamento reservado, Iniciático, cuja absorção dependia de certas circunstâncias especiais e das características de quem os recebia. Logo, o termo contrário, exotérico, era utilizado para designar tudo aquilo classificado como de domínio público, que podia ser transmitido abertamente e sem restrições. Não devemos, portanto, confundir esotérico com espiritual ou místico. Aliás, o adjetivo místico, e o substantivo misticismo são as expressões que na minha opinião melhor definem o conceito de esotérico e esoterismo que é utilizado comumente, mas isso é assunto pra outra ocasião. Enfim, resumidamente falando, esotérico é particular (por qualquer razão), e exotérico é público. Simples assim, pelo menos na minha opinião. SERGIO EMILIÃO M.I. FR+C
Sagrado e Profano

Se você é Maçom com certeza já ouviu essa expressão. Se não é provavelmente já ouviu também. Mas a pergunta que faço é a seguinte: será que você sabe exatamente o que esse vocábulo quer dizer? Será que realmente há algo de pejorativo e insultante em chamar alguém de profano? Vou tentar esclarecer. A expressão “profano” é um adjetivo formado pela aglutinação do prefixo latino pro (antes, anterior, do lado de fora, externo, etc.), e fanum (templo), formando o vocábulo original profanum, que significa literalmente “aquele que está do lado de fora do templo”. Como a expressão é latina nossa ideia imediata é que seu uso tenha se originado no Império Romano, o que é verdade, porém o conceito é bem anterior, e remonta às antigas Tradições Iniciáticas já existentes na Suméria, Egito e Grécia. As antigas Tradições Iniciáticas destas civilizações não permitiam o acesso de qualquer pessoa a seus ensinamentos. Para ingressar numa destas Escolas de Mistérios os candidatos tinham que se submeter a uma rigorosa seleção que ia desde a análise do caráter e antecedentes do candidato, até a comprovação de sua coragem e determinação. Após essa fase probatória os candidatos admitidos se tornavam Iniciados, e a partir daí adquiriam o direito de participar das reuniões e receber os seus ensinamentos. Estas reuniões, onde ensinamentos místicos e esotéricos eram ministrados aos participantes, eram realizadas num local considerado sagrado que se denominava templo, obviamente resguardadas as diferenças entre cada idioma. Ao ingressar nestas Ordens Iniciáticas os membros prestavam juramento de não revelar a estranhos nada do que se passava no interior dos templos. Desta forma os Iniciados, que obtinham permissão de acesso mediante senhas e códigos só conhecidos dos membros, podiam ingressar no templo, e os que não eram Iniciados ficavam do lado de fora. Assim, fica claro que os que não podiam entrar nos templos Iniciáticos não o faziam porque eram leigos, estranhos àquela sociedade, e não porque não queriam ou< por aversão a tais Escolas, muito embora também houvesse casos assim, é claro. Tanto esta prática quanto este conceito chegaram a Roma, e por consequência, após sua conversão à fé Cristã, à Igreja. Foi aí que surgiu o conceito de sagrado, sacro, ou Iniciático para tudo aquilo que era velado e só transmitido a um seleto grupo de pessoas: os que tinham permissão de ingressar nos templos; e profano: para os leigos não Iniciados que ficavam do lado de fora. Mais tarde a Idade Média deturpou o conceito original do termo profano e lhe atribuiu o significado de tudo aquilo que transgredia regras sagradas ou não respeitava a doutrina religiosa. Profano, impuro, ateu e herege tinham praticamente o mesmo sentido nesta época. Profano passou a ser antônimo de fiel. Foi também neste período negro da História que surgiu o verbo profanar, aplicado a ladrões que violavam túmulos e roubavam igrejas. Esta expressão ganhou ainda um simbolismo mais pernicioso no século XX como consequência das descobertas de túmulos de faraós egípcios, expandindo-se ao cinema e tornando-se mais popular com os famosos filmes sobre múmias ressuscitadas que vingavam a profanação de seus mausoléus. Na verdade, se considerarmos que o verbo se originou da prática de permanecer do lado de fora dos templos, ou seja, de ser um leigo ou um não Iniciado, o significado correto do verbete profanação deve ser entendido como tornar público algo que é velado e de conhecimento restrito, nada mais. Ser profano não é cometer um crime, nem tampouco algum pecado. Ser profano é apenas e somente ser leigo em relação a um determinado assunto de domínio limitado a determinada classe, da mesma forma que existe o civil e o militar, o público e o privado, o sacerdote e o fiel. O conceito de profano na verdade representa condições opostas: o comum e o sagrado, o leigo e o Iniciado, o material e o espiritual. Portanto, se daqui pra frente você ouvir alguém se referir a você como um profano não se ofenda. Não há nada de pejorativo nisso. Mas se isso realmente o incomodar, é porque na verdade a condição de não Iniciado o aflige, não o termo. Talvez esteja na hora de você se tornar um Iniciado. Já pensou nisso?
O Sentido do Tantra

Em nossos caminhos espirituais, muitos já devem conhecer algo sobre o Tantra. Em livrarias, artigos ou até mesmo em bancas de jornal, o tantra tem sido divulgado entre nós de forma cada vez mais rápida e diversificada, inclusive em inúmeras comunidades no Orkut, sites, cursos, workshops, etc. Um fator que deve ser motivo de nossa preocupação é a qualidade e fidelidade dessas informações, se estão ou não preservadas em sua essência, se estão ou não baseadas nos ensinamentos tântricos de mestres como Tilopa, Naropa, Saraha, Gorak, Milarepa, etc. Não é raro lermos matérias e artigos com chamadas do tipo, descubra os segredos do orgasmo tântrico, seduza o seu parceiro através do tantra, tenha mais orgasmos! Será que é isso que esses honoráveis mestres espirituais propunham através do Tantra? Parece que para evitar essas distorções, esses mal-entendidos, esses mesmos mestres e muitos outros, ensinavam secretamente o Tantra, que passou a ser conhecido como veículo secreto, dharma secreto ou modo de vida secreto, pois de alguma forma sabiam que a compreensão errada, a prática mal entendida em suas bases, poderia ser mais prejudicial do que benéfica. Mas afinal, o que há de secreto no tantra? Porque no ocidente passou a ser sinônimo de sexo? O que queriam evitar quando o denominaram de modo de vida secreto? Há algum perigo em suas práticas? Entender essas questões é primordial para entendermos o próprio sentido do tantrismo. Para tal, devemos nos recordar, que o tantra é uma tradição espiritual, um conjunto de conhecimentos e práticas profundamente enraizados na meditação, que se propoem a nos conduzir a um estado além do desejo, além do círculo de sofrimentos causado pelo apego aos prazeres sensoriais e não a um reforço do prazer através do desempenho de qualquer espécie. Entretanto, o que diferencia o tantra das demais tradições e o que o torna exclusivo e tido como um caminho elevado para a iluminação é justamente o uso do “veneno” como o antídoto do próprio “veneno”, isto é, penetrar em nossa própria ilusão para superar a ilusão, penetrar em nosso próprio desejo, para superar o desejo. Esta é a chave principal do tantra: permitir entrar na sexualidade, de forma consciente e contemplativa, para ir além das próprias amarras do sexual, se permitir adentrar na raiva, para superar as ilusões da raiva. Isto é, só iremos transcender algo, se pudermos vivenciar esse algo de forma plena, consciente e meditativa. Em leu livro, O Mundo do Budismo Tibetano, encontramos a seguinte exposição do atual Dalai Lama: “(…) Portanto, num sentido, podemos dizer que é a própria ilusão – na forma da sabedoria derivada da ilusão – que efetivamente distrói as ilusões, pois é essa bem-aventurada experiência da Vacuidade, induzida pelo desejo sexual, que dissolve a força dos impulsos sexuais… Essa utilização das ilusões, como parte integrante do caminho da iluminação, é uma característica exclusiva doTantra”. (p.142) Outra característica importante do Tantra é ser considerado um método que lida com características femininas, como a sensibilidade, a percepção, a intuição, o relaxamento, em contraponto com as tradições e sistemas eminentemente masculinos, que lidam com a resistência, o esforço, a superação, a ação. Quanto a isso, o mestre indiano Osho, compara as tradições tântricas com a tradição do yoga e afirma serem tradições não só diferentes, como até mesmo opostas. Enquanto o yoga é uma tradição masculina, yang, solar, onde o praticante é estimulado através do esforço e da ação a superar a si mesmo, superar a dor, aprimorar a postura e a resistência, o tantra é uma tradição feminina, yin, lunar, onde se trabalha a capacidade de relaxamento, de prazer, de seguir nossa natureza de forma meditativa e não lutar contra ela. Ir. Carlos Eduardo Bouzada